O delírio de uma geração
Medo e delírio, dirigido pelo ex-Monthy Pyton Terry Gillian, é a história de Raoul Duke (Johnny Depp), um jornalista esportivo, que passa quase todo o seu tempo sob o efeito de qualquer droga disponível, enviado de Los Angeles para cobrir uma corrida de motocross no deserto de Las Vegas. Raoul tem como companheiro de viagem o também consumidor compulsivo de alucinógenos Oscar Z. Acosta ou Dr. Gonzo, seu advogado. Durante quase todo o filme Raoul e Oscar estão sob o efeito de drogas lícitas e ilícitas e o espectador é muitas vezes arrastado para dentro de seus delírios por uma câmera subjetiva, o que faz o filme um tanto engraçado e “viajante”.
No entanto Medo e delírio é mais do que isso.É adaptação cinematográfica do livro Fear and Loathing: A Savage Journey to the heart of the American Dream ( Medo e delírio: uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano*) de Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo Gonzo. Este tipo de jornalismo é caracterizado por não ser objetivo, imparcial ou isento. Também se caracteriza por não distinguir entre autor e sujeito, ficção e não-ficção. Um bom exemplo é a matéria “The Kentucky Derby is Decadent and Depraved” (O Kentucky Derby é Decadente e Depravado*) que Thompson escreveu para a revista Scanlan’s Monthly. O jornalista havia sido designado para cobrir o Kentucky Derby, uma corrida de cavalos que acontece há mais de cem anos na cidade de Louisville. Depois de quatro dias de torpor alcoólico Thompson não sabia quem havia ganhado a corrida e produziu um artigo extremamente ácido e crítico sobre a sociedade sulista norte-americana, no qual alterava os acontecimentos reais do evento.
Além disso Hunter Thompson fez parte de uma geração que, durante os anos 1960, foi influenciada por ideais de expansão da mente para novos valores. Durante a segunda metade desta década Thompson conviveu ativamente com a contracultura e a comunidade hippie em San Francisco. Experimentando drogas e praticando o “amor livre”, jovens, de todo o mundo, questionaram a sociedade – política, religião, moral e costumes – em que viviam e a própria realidade enquanto construção mental. Em sua utopia, queriam “mudar o mundo” porém, esta não sobreviveu e nos anos 1970 seria substituída pela hedonista cultura Disco.
Em certo momento do filme Duke diz: “Nós tínhamos todo o momento, nós estávamos na crista de um alta e bela onda. E agora, menos de cinco anos mais tarde, você pode subir em uma colina em Las Vegas e olhar para o Oeste, e com o tipo certo de olhos quase pode ver a marca da maré alta: o lugar onde a onda finalmente quebrou e voltou.” Raoul Duke, o alter-ego de Hunter Thompson, vive neste filme a ansiedade, a frustração da não-realização dos seus sonhos, a decepção e o deslocamento que muitos outros jovens norte-americanos viveram no final da década de 1960, época politicamente conservadora – Richard Nixon havia sido eleito presidente em 1968 e seria re-eleito em 1972. Para Duke:” Todos agora estão ligados na viagem da sobrevivência”.
Nesta sociedade conservadora, seu total desprezo pelos valores sociais permitia que infringisse leis e/ou regras consuetudinais, mesmo tendo consciência moral de seus atos. Seu deslocamento causa a necessidade cada vez maior de se drogar, – talvez como fuga ou simplesmente tentando alcançar a expansão da mente, algo impossível para aquelas pessoas de mentalidade atávica, – ao mesmo tempo que persegue, quase que obsessivamente, o “Sonho Americano”. Mas Hunter não acredita neste sonho. Ele acredita que aquelas pessoas que o vivem são hipócritas e que historicamente vêm acabando com qualquer possibilidade de felicidade e realização da humanidade. “Vocês mataram Jesus”, diz Raoul Duke a um casal. Sua decepção com o contexto sócio-cultural em que vivia o levaram a um vazio existencial e a um comportamento auto-destrutivo.
Longe de ser um filme que faz apologia ao uso das drogas – talvez seja mais plausível o contrário – Medo e Delírio é quase um testemunho de um homem decepcionado, perdido em um mundo que é exatamente o contrário de tudo aquilo por que lutou por anos.
*tradução livre do autor
Filmes citados:
Medo e delírio ( Fear na Loathing in Las Vegas, 1998/ Terry Gillian)

Johnny Depp, Benício Del Toro.
INCRIVEL.